Tenho uma dor

Default avatar

by Sara Marques dos Santos
on

Tenho uma dor. Uma dor que apareceu de um dia para o outro, de uma hora para a outra, quando nunca imaginava que podia haver tal dor. Num rasgo de segundos veio a dor. 

Só que veio para ficar. Não passa. Por alguns dias, meses e até anos, pensei que essa dor ia passar. Se me esforçasse muito, se fizesse de tudo, me concentrasse só nisso, a dor ia passar.

Depois fui percebendo que a dor estava lá instalada. Fui aceitando. 

Fui também percebendo que havia outras mães com a mesma dor...

Todos os dias, quando me levanto, parece que a dor não está lá. Mas, à medida que vou acordado, vou-me a percebendo que ela ainda não se foi. Continuo sem saber bem em que local está localizada, porque, na realidade, dói-me tudo e em todo o lado.

É uma dor crônica, é constante, vai doer até não sei quando. Ou melhor, sei. É uma dor que não vai deixar de doer nunca. É uma dor que revela a impotência, que se traduz em infelicidade. É a dor de ver o meu filho diferente, especial, ter uma deficiência, como lhe queiram chamar. É a dor de ver um filho que não anda nem vai andar, não fala nem vai falar, não come nem faz nada do que fazem as crianças da idade dele. E eu? Impotente! E com uma dor dilacerante, que me atravessa o coração, a alma... 

Só que, à vista desarmada, poucos vêem em mim essa dor. Sabem que ela está lá mas acham que não dói. Só que dói, e dói muito, e dói sempre, em todos os segundos, em todo o ar que respiro, em tudo o que faço.

Há pessoas que se esquecem que tenho essa dor e que julgam que eu posso fazer tudo o que as outras mães fazem, que outras profissionais fazem, que outras esposas fazem. Porque se esquecem que qualquer coisa que eu faça, está a doer.

Essa dor não me trouxe adormecimento. Trouxe-me tudo o que tenho de bom e tudo o que tenho de mau! É impossível fingir que a dor não está lá. Faz-me ser menos paciente, menos tolerante, menos arranjada, menos divertida, menos feliz. Mas também mais compreensiva, mais sensível e talvez mais amiga. Fez-me saber apreciar o que a vida tem de bom!

Todos os dias, quando me deito, peço muito, muito, que acorde sem essa dor. Mas sei que isso não vai acontecer. Mais uma vez, porque ela está lá. Não melhora com uma noite de sono, com comprimidos, com operações, com quaisquer tipos de tratamentos.

"Ah, mas pode ser atenuada", há quem diga. Pode, é verdade. Tem dias em que a dor parece que atenua um bocadinho. Mas dura pouco, como qualquer dor crônica, nunca vai passar.

Mas não é por ter essa dor que o amor é menor ou diferente! O amor que tenho por essa dor é um amor que me enche a alma, porque, no final, essa dor é minha, é meu filho, seja ele como for, ande ou não, fale ou não. 

Queria ter essa dor? Não, não queria! Mas que fazer? Ela veio para ficar durante a minha vida! E eu vou estar sempre cá para senti-la como minha.

Things you might like

Other articles you might enjoy...

Survey icon

Public Opinion…

Did you know an 'advanced' backrest is now available for Scooot?