Limite é uma palavra bem relativa. Cada um tem o seu. Seja lá para o que for. Seguindo essa mesma linha de pensamento, acredito que a limitação também pode ser relativa. Ainda que visível, no caso de deficientes físicos. Acho que a grande limitação está na cabeça. Não só dos deficientes. Mas de todos que convivem ou que estão ao lado dele.

No caso de crianças especiais, os primeiros grandes limitadores – ou não! – somos nós, seus pais.

Raramente deixo de fazer ou de levar Antonio pra alguma coisa ou algum lugar. Confesso que às vezes bate a preguiça ou uma certa insegurança. "Será que o andador vai conseguir circular? Será que vale à pena carregar tanto peso? Será que vou conseguir dar conta do Antonio e das duas meninas sozinha?" Enfim, questões minhas, da minha rotina, do meu temperamento, dependendo do meu estado de espírito. E, não sou perfeita, algumas vezes não tive coragem mesmo de encarar o desafio. Ou por falta de companhia, ou por medo de não ter onde estacionar o carro, ou por puro cansaço mesmo. Acontece. E não me culpo.

Não me culpo porque na maioria das vezes eu vou. Sou boa de desafio. Aguento peso e sempre conto com a boa vontade de estranhos. Juro. Apesar de achar que o mundo precisa de muito mais amor para se tornar um lugar melhor, não posso reclamar dos estranhos que cruzam meu caminho. Cansei de sair sozinha com três crianças pro parquinho e lá não me faltou ajuda para olhá-los. Outra situação comum é juntar gente pra me ajudar a descer o andador, carrinhos, brinquedos etc do carro. Sempre aparece alguém para parar o trânsito e nós atravessarmos. Se cai alguma coisa, as pessoas quase brigam pra pegar pra nós, rs. E por aí, vai.

Não sei do fundo do coração se isso acontece porque as pessoas são boas ou se porque eu devo parecer tão maluca que a galera me ajuda por medo de acontecer uma tragédia.

Não importa. A questão é que o primeiro passo pra se tentar não ficar presa em casa com uma criança especial é sair. Sair porta a fora. E ver no que dá. Ver quem aparece pra ajudar. Se surpreender com a força que você tem pra carregar trambolhos e nem sabia.

Comece com o parquinho do condomínio e vá se arriscando cada vez mais. Vá ao shopping, vá à praia, vá a festas, vá a restaurantes, faça trilhas na mata!

Esse foi nosso passeio mais recente. Uma trilha na Floresta da Tijuca. Obviamente a trilha era fácil e rápida e eu não estava sozinha. Mas o relevante aqui é que o fato do Antonio não andar, ou andar só em um andador trambolhudo não foi um limitador para que a gente aproveitasse o verde e a natureza que há em nossa cidade. Por que eu privaria meu filho disso? Porque é difícil sair com ele?! Faça-me o favor. Difícil é convencer a minha filha do meio a colocar uma calça para o programa. Tanto que não consegui. Ela foi de saia de filó. Branca.

É claro que cada caso é um caso, que cada um tem suas reais dificuldades de tempo, de estrutura familiar, de transporte, financeira... Não julgo ninguém. Mas meu ponto é: é difícil, mas dá. De algum jeito dá. Talvez não dê sempre. Mas dá. E quanto mais a gente vê que dá, mais a gente vai. Não há ou não deve haver limites para diminuir as limitações dos nossos filhos.

Acho de verdade que Antonio nem deve saber o que é isso. Querer ir a algum lugar e não conseguir ou não poder. Não deixamos brecha pra essa sensação aparecer. E o sorriso dele de menino feliz é o meu motor. Meu filho é feliz. E eu sou feliz por fazê-lo feliz. A paralisia dele nunca me paralisou. Pelo contrário, acabou fazendo com que nos mexêssemos muito mais. Nosso recado pra todos é: Mexam-se! 

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