O meu filho com necessidades especiais foi o meu primeiro filho.

Era um sonho, uma realização, comprei roupas, cama, lençóis, tudo lindo e planeado para ter um bebé perfeito e saudável. Mudámos de casa a tempo de receber aquele maravilhoso bebé.
As preocupações eram apenas se iria ser moreno ou loiro, parecido com quem e o parto (o medo do parto)! 

Depois nasce uma criança cheia de problemas, que começaram logo na maternidade. 
E nunca mais me lembrei sequer de ver com quem era parecido, se era loiro ou moreno nem com as dores de parto (em 3 dias estava a conduzir e recuperada de uma cesariana, tal foi a necessidade de mudar o “ship”).

Começam as correrias para as terapias, para os médicos, para fazer exames e mais exames. Eu começo a fazer pesquisas diárias e obsessivas por respostas, a comprar livros sobre o tema. Acreditava que o meu filho ia ser um milagre, ou, no máximo, aquelas crianças que ficam com ligeiras deformações. 
Começam então as viagens por Portugal e pelo mundo em busca de novos tratamentos. Fomos a Inglaterra, à Alemanha, a Cuba, a Espanha, sempre a fazer tratamentos (alguns meramente experimentais e pelos quais pagámos fortunas). A certa altura, começo (e ainda o faço) a trazer a Portugal terapeutas estrangeiros, peritos em certos métodos de reabilitação, para fazer terapia para o meu filho e a organizar para outras crianças.
Deixei de trabalhar e dediquei-me por completo a uma criança que era minha e dependia de mim e da minha dedicação. Acreditei que se fizesse de tudo ele iria ser uma criança muito próxima do normal. 

Sempre fui consciente e sempre soube que nunca iria ter um filho igual aos outros. Mas há medida que os anos foram passando, depois de experimentar muitos métodos, centros, terapeutas, e todas as novidades em equipamentos, percebi que por muito que acreditasse e por muito que fizesse, todas as lesões que estão dentro da cabeça de uma criança com paralisia cerebral, da minha criança, nunca vão desaparecer.

Com 6 anos desta vida, não deixo de acreditar. Mas acredito noutras coisas.
Se antes acreditava que ia andar com uma perna ligeiramente torta, agora acredito que vai andar com um andarilho.  Aliás, já anda numa andarilho e no Upsee.
Se antes acreditava que ia andar sempre. Agora acredito que vai andar numa cadeira de rodas e às vezes num andarilho. Sei que lhe vai ser muito mais fácil andar nessa cadeira e que isso o fará mais feliz. E pode até ser numa cadeira eléctrica, se isso lhe trouxer realização e consiga ter autonomia.

Se antes acreditava que iria falar, apenas com uma ligeira deformação, hoje acredito que conseguirá comunicar e fazer-se entender através de um qualquer mecanismo externo. Mas o que me interessa é que ele se sinta compreendido e que nós lhe consigamos passar as nossas mensagens.
Se antes acreditava que talvez conseguisse escrever com as suas mãos, hoje não vejo necessidade disso e acredito que um dia vai conseguir segurar na sua colher, que será muito mais útil à sua vida do que saber escrever.

É disto que se trata, acreditar sempre, embora as nossas metas tenham passado a ser outras.
E é por isso que continuo a procurar melhores ou outras terapias ou tratamentos.
Mas sobretudo, acredito em mim e no meu filho. Olho para trás, vejo o caminho que percorremos. Podia ter sido pior, ele podia ser pior, fazer menos do que faz, entender menos do que entende. Porque nunca parei de acreditar em nós! E vou sempre acreditar!

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