Hoje, combinei com uma mãe de um amiguinho do Antonio da escola de irmos com as crianças ao cinema, ao teatro, fazer um pic-nic ou simplesmente levar pra brincar na casa um do outro. Tudo muito natural se eu não estivesse falando do meu filho, que tem paralisia cerebral.

Mas esse é o ponto: até quando temos que viver como se fôssemos totalmente diferentes?

Bem, essa pergunta não tem uma resposta exata. Cada família precisa vivenciar todas as fases necessárias e inerentes ao fato de se ver, de repente – ou não para alguns –, como pais de uma criança especial. Mas… Passa.

É aquela velha maxima de que com o tempo, tudo passa. Pra mim, passou. Há pouco tempo, é verdade, mas passou.

Antonio acaba de completar cinco anos e, enfim, eu sinceramente me permito nos enxergar como uma família normal. Normal no sentido de que a condição dele não é mais uma fatalidade e sim a nossa realidade. E é só nela que podemos viver. Então, que assim seja.

Não foi fácil chegar até aqui. Anos de luto e de luta. De pesquisas, de tentativas. De tratamento, de sofrimento. De cansaço, de desânimo, de altos e baixos. Mas nos encontramos. Encontramos nosso caminho, nossa rotina. Montamos uma turma sólida e segura de médicos e terapeutas que, hoje, são praticamente da família. Um time chamado Antonio Pedro.

É claro que isso não significa que não vou mais tentar nada e nem mexer em uma coisa ou outra quando eu achar necessário. Meu radar de super mãe continua ligado. Mas é diferente. Não sou mais uma pessoa tensa, perdida, que atira para todos os lados, que compra todas as traquitanas que aparecem. Hoje me sinto como uma profissional experiente, que sabe das coisas, que tem know how para analisar cada nova promessa, cada novo equipamento. Não sou mais estagiária, virei presidente da empresa. Numa carreira fulminante, em que ganhei diversos bônus e promoções. Trabalhei tão bem, dei tanto duro nesses cinco anos que virei chefe. Chefe da minha vida.

E atualmente eu me permito gozar de algumas regalias. Minha responsabilidade continua imensa, mas tenho uma equipe excelente que eu escolhi trabalhando pra mim e em quem em confio bastante. E, assim, a máquina anda. De andador, mas anda.

Mau filho é uma criança feliz, uma criança saudável. Por que ele não poderia aproveitar as coisas que qualquer criança na idade dele aproveita?

Ele pode. Com uma adaptação ou outra, mas pode. Mas isso só é possível porque eu também posso. Eu, mais do que ele, sou uma mãe como todas as outras. E, como mãe, preciso e mereço vivenciar experiências normais, por assim dizer. Tenho duas outras filhas mais novas. E vivo um monte de coisas com elas. Mas não basta. Quero viver com ele. Ele é meu moleque. Meu único filho homem. Meu primeiro filho. Quero saber tudo dos heróis e não só das princesas. Quero comprar cueca. Quero ver o filme dos Aviões. Jogar bola, brincar de luta, ir em apresentação de Judo. Como? Nem sempre eu tenho a resposta na hora, mas acabo dando um jeito. E adoro isso. Adoro pensar, adaptar, tornar possível.

E o que me ajuda a querer e conseguir viver normalmente é justamente o fato de ter parado de bater a cabeça na parede, de me lamentar, me envergonhar, me esconder. Todos esses sentimentos existiram de verdade dentro de mim em algum momento. Mas naturalmente foram indo embora. Um a um até que não sobrou nada para me impedir de seguir em frente.

A última coisa a ir embora foi essa ânsia de estar sempre procurando algo novo pra fazer com ele em termos de tratamentos e terapias. Minha sensação hoje é a de que conheço todos e todas, ou pelo menos a maior parte. E estou em paz com esse meu conhecimento a partir do momento em que o usei para fazer minhas escolhas. Estou de olho em tudo que possa aparecer. Mas, por hora, o projeto está em andamento. Com horário de almoço, dias de descanso e com direito à férias de vez em quando.

Queria eu poder ensinar o que aprendi nesses anos. Mas minha empresa chama Antonio Pedro. Cada um tem a sua. Desejo sucesso a todas. Leve o tempo que precisar.

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